O Brasil registrou um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,3% em 2025, um desempenho impulsionado significativamente pelo setor agropecuário, que avançou notáveis 11,7% no período. Este dado, embora positivo em sua totalidade, revela uma dinâmica econômica interna caracterizada por contribuições desiguais entre os setores. Enquanto a agropecuária demonstrou forte capacidade produtiva, os demais setores apresentaram um crescimento mais moderado, e a indústria, em particular, registrou uma leve retração de -0,2%.
Essa performance setorial sublinha uma característica recorrente da economia brasileira: a dependência do setor primário para sustentar o crescimento geral, com a indústria enfrentando desafios para alcançar um dinamismo similar. Para a indústria química, que é um pilar fundamental para diversos outros setores produtivos, esse cenário de crescimento industrial contido representa um obstáculo. A demanda por produtos químicos está intrinsecamente ligada à saúde da manufatura e da construção, por exemplo. Em um contexto global de cadeias de suprimentos em reconfiguração e pressões por sustentabilidade, a indústria química brasileira precisa navegar entre a necessidade de inovação e a realidade de um mercado interno com menor ímpeto industrial.
Globalmente, a indústria química já vinha enfrentando ventos contrários, como o fraco crescimento econômico, tensões geopolíticas e um ambiente regulatório fragmentado. A busca por resiliência na cadeia de suprimentos tem levado a movimentos como o ‘friend-shoring’ e a regionalização da produção, visando reduzir vulnerabilidades e garantir o abastecimento de insumos essenciais.
Nesse panorama complexo, a escalada de conflitos geopolíticos, como a atual guerra no Irã, adiciona uma camada de incerteza e risco. O conflito no Oriente Médio já tem provocado um aumento nos preços do petróleo e do gás natural, impactando diretamente os custos de produção da indústria química, que é intensiva em energia e matérias-primas petroquímicas. Além disso, a interrupção das rotas de transporte marítimo, especialmente no Estreito de Ormuz, e a volatilidade nos preços dos fertilizantes, dos quais o Brasil é um grande importador, representam ameaças significativas para o agronegócio e, consequentemente, para a economia brasileira como um todo.
Diante de um crescimento do PIB em 2025 que, embora positivo, mostrou fragilidades estruturais na indústria, e com a sombra de um conflito no Irã que pode desestabilizar ainda mais os mercados globais de energia e commodities, surge a provocação: quão preparada está a economia brasileira, e em particular sua indústria química, para absorver esses choques externos e transformar os desafios geopolíticos em oportunidades estratégicas para fortalecer sua autonomia e competitividade no cenário global?
Fontes: Investment Banking na Prática com Adriano Leite, SCI, Kearney, ICIS, Z2 Data, Reuters
Por: Heloisa Saraiva
