Celulose e Papel: O Compromisso com a Sustentabilidade e a Economia Circular em 2024

O setor de celulose e papel, particularmente no Brasil, apresenta tendências significativas para 2024, abrangendo desde a transformação digital até a sustentabilidade. O 56º Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel de 2024, organizado pela Associação Brasileira Técnica de Celulose e Papel (ABTCP), destaca-se como um dos principais eventos do setor, reunindo empresas, profissionais e especialistas para discutir as tendências emergentes e compartilhar conhecimentos técnicos. O tema central para o ano de 2024 foi a “Transformação Digital dos Processos Produtivos”, com ênfase na circularidade e em inovações que se alinham às metas de ESG (ambiental, social e governança).

O evento enfatizou inovações tecnológicas e sustentáveis voltadas para a eficiência ambiental e a digitalização dos processos produtivos. Empresas como a Valmet apresentaram avanços em produção e tecnologias de conversão de papel, sublinhando soluções sustentáveis e eficientes. A Voith Paper destacou suas iniciativas digitais, incluindo a modernização operacional para atender às demandas da economia circular e a redução da pegada de carbono, em conformidade com práticas ambientalmente responsáveis.

As empresas discutiram a aplicação de técnicas de machine learning para manutenção prescritiva, integrando tecnologias da Indústria 4.0 com o objetivo de otimizar processos produtivos e promover a sustentabilidade. A transformação digital consolida-se na automação e na utilização de inteligência artificial, visando a otimização de processos, a redução de custos e a melhoria da eficiência operacional. A digitalização também abrange a implementação de manutenção preditiva e gestão inteligente de resíduos, contribuindo para a adoção de práticas ecoeficientes em alinhamento com os princípios de ESG.

A Arena de Inovação destacou-se como um momento importante durante o congresso, permitindo que startups e empresas apresentassem soluções para os desafios do setor, que vão desde a economia circular até a gestão eficiente de água e energia. Essa iniciativa promoveu a conexão entre startups e a indústria, visando a colaboração em soluções de segurança cibernética, sustentabilidade e desenvolvimento de embalagens sustentáveis.

Palestras abordaram temas sustentáveis e inovadores em várias áreas, com destaque para o revestimento do papel, pois com a crescente demanda por alternativas ao plástico, empresas estão explorando o uso de embalagens de papel, buscando maior biodegradabilidade e menor impacto ambiental. Essa tendência está alinhada ao movimento global de substituição de plásticos por materiais sustentáveis, e o mercado de celulose e papel tem sua vantagem por oferecer uma solução sustentável com a produção de embalagens de papel e papelão.

O interesse por embalagens sustentáveis tem crescido de forma significativa nos últimos anos, a substituição de embalagens plásticas por opções compostas de papel representa uma alternativa eficaz para mitigar a pegada de carbono na cadeia produtiva de embalagens, uma vez que o papel é uma matéria-prima 100% vegetal, biodegradável e totalmente reciclável. Produzido a partir de celulose oriunda de florestas plantadas, o papel oferece vantagens ambientais, incluindo a captura de CO₂ atmosférico, contribuindo assim para a diminuição dos impactos ambientais.

Entretanto, a utilização exclusiva de papel nas embalagens apresenta limitações funcionais, uma vez que esse material não possui propriedades de barreira adequadas, como resistência à água, óleos, gorduras, vapor d’água e oxigênio. Para superar essas limitações, é imprescindível o revestimento do papel com produtos sustentáveis que conferem essas propriedades, porém há poucos produtos sustentáveis para tal aplicação, a maioria ainda utiliza produtos de fonte fóssil, mas há uma intensa pesquisa para desenvolvimento e aplicação de materiais sustentáveis.

As tendências de utilização de produtos de fontes renováveis refletem o compromisso crescente do setor com a inovação e a sustentabilidade, mudanças nos hábitos de consumo e o aumento da demanda nos últimos anos têm impulsionado avanços tecnológicos e o crescimento da cadeia de bens de consumo, resultando em um aumento significativo na produção de embalagens em diversos segmentos do mercado. Destaca-se, especialmente, a indústria alimentícia, que demanda materiais que protejam e conservem os alimentos. Essas embalagens requerem propriedades impermeabilizantes contra líquidos e barreiras para vapores de água e oxigênio.

As barreiras podem ser aplicadas em diferentes gramaturas de papel. Para avaliar a resistência à água, utiliza-se o Cobb Test, onde valores próximos de zero são considerados excelentes para resistência a líquidos. Quando se trata de barreira ao vapor d’água, produtos específicos são aplicados com a função de reter umidade no interior da embalagem ou de impedir a entrada de umidade e vapor, são aplicadas na face interna ou externa do material, dependendo do objetivo. O ensaio de Taxa de Transmissão de Vapor de Água (WVTR) é um método laboratorial utilizado para medir a permeabilidade ao vapor.

A ausência de “blocking” é essencial para a qualidade do produto final. O “blocking” refere-se à aderência do material quando este é rebobinado após a aplicação na máquina de revestimento; uma secagem adequada é fundamental para evitar, pois ele pode comprometer o desempenho do papel na conversão para embalagens e danificar o filme superficial formado na máquina.

As mudanças no comportamento do consumidor e a preservação ambiental para as futuras gerações têm impulsionado o desenvolvimento de barreiras superficiais sustentáveis. Esse tema é objeto de diversos estudos científicos e técnicos que buscam alternativas ao plástico e seus derivados, especialmente no que diz respeito à melhoria das propriedades e à reciclabilidade dos materiais.

A sustentabilidade é uma preocupação central neste mercado, que está alinhado a uma tendência global. Nesse contexto, o papel se destaca como uma excelente alternativa devido ao seu caráter sustentável, sendo produzido a partir de fontes renováveis e por meio de processos produtivos que atendem às regulamentações ambientais. No entanto, muitas das embalagens de papel ainda contêm materiais não sustentáveis em seus revestimentos, como plásticos e compostos fluorados, que garantem propriedades de repelência e impermeabilização.

O novo cenário regulatório está incentivando os fabricantes de embalagens a adotarem soluções sustentáveis, proibindo plásticos de uso único e promovendo a eliminação progressiva de substâncias alquilalquídicas perfluoradas e polifluoradas. Essas medidas estão estimulando as empresas a buscarem alternativas de barreiras que não comprometam a reciclabilidade das embalagens. Em pesquisas recentes, 55% dos europeus afirmaram preferir embalagens de papel por serem consideradas melhores para o meio ambiente, enquanto 60% dos americanos declararam estar dispostos a pagar mais por embalagens sustentáveis

Alternativas a substâncias à base de flúor e polietileno em revestimentos recicláveis e repulpáveis para embalagens alimentares e não alimentares são essenciais. As soluções de barreira atualmente disponíveis apresentam limitações, especialmente após processos de dobra ou vinco, onde substâncias oleosas e gordurosas tendem a migrar para o papel nas bordas das caixas, resultando em pontos de absorção indesejados. A busca por produtos de barreira sustentáveis, biodegradáveis, livres de compostos fluorados e fabricados a partir de fontes renováveis para papéis de embalagem é o foco atual do mercado. Esses produtos visam assegurar a performance de barreira, a qualidade e, simultaneamente, aumentar a sustentabilidade das embalagens de papel.

Para aplicações alimentares, os revestimentos devem cumprir rigorosamente as regulamentações para contato direto com alimentos, atendendo às normas da FDA, BfR e Anvisa. Além disso, devem ser compatíveis com as máquinas de revestimento atualmente empregadas na indústria. A embalagem final não deve conter substâncias perfluoroalquiladas (PFAS), que estão proibidas em diversas regiões, e precisa ser verdadeiramente circular, isto é, totalmente reciclável e repulpável.

Uma alternativa que se alinha aos princípios da economia circular é o uso de lignina kraft como revestimento para embalagens. Diversas pesquisas têm explorado biopolímeros como materiais de barreira ecologicamente corretos para papéis de embalagem. Uma inovação recente envolve a produção de poliuretano à base de lignina, aplicado como revestimento em papel para embalagens. Nesse processo, a lignina é solubilizada e utilizada como substituto de poliol na reação, variando em diferentes porcentagens de lignina, seguida pela adição de isocianato para a formação do poliuretano. Os resultados têm demonstrado resistência à água e ao óleo, posicionando-se como uma alternativa promissora para embalagens mais sustentáveis.

A indústria de papel e celulose tem investido fortemente em práticas sustentáveis, como a utilização de resíduos para geração de energia e redução de desperdício. Há indústrias no setor que estão ampliando o uso de biomassa e a reciclagem de subprodutos como uma fonte adicional de receita e redução do impacto ambiental.

Em conclusão, o setor de celulose e papel no Brasil se encontra em uma trajetória de transformação impulsionada pela digitalização e pela busca incessante por soluções sustentáveis. O 56º Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel de 2024 destacou não apenas as inovações tecnológicas, mas também a necessidade de integração de práticas sustentáveis que atendam às exigências do mercado atual. A ênfase na economia circular, aliada ao uso de materiais renováveis e ao desenvolvimento de barreiras sustentáveis, reflete um compromisso crescente do setor com a preservação ambiental e a adaptação às novas demandas dos consumidores. Embora ainda existam desafios, como a superação das limitações funcionais do papel, a busca por alternativas ecológicas, como o uso de lignina e amido, indica um futuro promissor. À medida que as empresas se adaptam às novas regulamentações e investem em tecnologias inovadoras, o setor de celulose e papel não apenas contribuirá para um mundo mais sustentável, mas também fortalecerá sua posição como um pilar fundamental na transição para uma economia mais verde.

Se você leu até aqui e gostou desse assunto, assine nossa newsletter e conecte-se com a W2S em todos os nossos canais de comunicação para não perder nenhum assunto sobre inovação, governança, tecnologia e ESG. Até a próxima!

W2S, transformando as suas ideias em resultados!

-Por Leticia Rodrigues