Biocombustíveis e SAF: o potencial da lignina na indústria de celulose


A transição energética global está redefinindo a competitividade industrial. Com metas cada vez mais ambiciosas de descarbonização e políticas ambientais mais rígidas, cresce a busca por alternativas sustentáveis aos combustíveis fósseis. Nesse cenário, o Combustível Sustentável de Aviação (SAF) ocupa papel central — e o Brasil desponta como um player estratégico para esse mercado.

Estudos indicam que o país poderá produzir até 10 bilhões de litros de SAF por ano até 2040, aproveitando sua base florestal robusta e a competitividade da indústria de celulose e papel.

Um dos grandes destaques nessa transição é a lignina — biomassa tradicionalmente tratada como subproduto de baixo valor. Atualmente, grande parte desse material é queimada para geração de vapor, mas avanços tecnológicos e novas demandas de mercado estão transformando o que antes era resíduo em um ativo estratégico.

A conversão da lignina em biocombustíveis avançados, como o SAF, abre uma nova fronteira tecnológica e representa uma oportunidade concreta de diversificação e fortalecimento do setor. Para as empresas, isso significa criar novas fontes de receita, reduzir a dependência do mercado volátil de celulose e reforçar compromissos com a sustentabilidade, posicionando-se como protagonistas da economia de baixo carbono.

Desafios e oportunidades


Apesar do potencial, o caminho para a produção de SAF a partir de lignina ainda enfrenta desafios técnicos e econômicos. O material apresenta características químicas complexas, exigindo rotas de conversão como pirólise, gasificação e processos biocatalíticos, que ainda estão em fase de consolidação para escala industrial.

Além disso, os custos atuais são de duas a oito vezes superiores ao querosene convencional, devido ao alto investimento inicial (CAPEX) e à complexidade operacional. A escalabilidade e a integração da cadeia produtiva serão fatores decisivos — envolvendo a conexão entre produtores de celulose, biorrefinarias e fornecedores de tecnologia, com processos digitalizados e rastreáveis.

O Brasil como líder potencial


Mesmo diante desses obstáculos, o Brasil reúne condições únicas para assumir a liderança global nessa transição:

  • Alta produtividade florestal;
  • Experiência consolidada em gestão de grandes operações industriais;
  • Ecossistema de inovação em expansão.

Projetos-piloto conduzidos por empresas nacionais, em parceria com universidades e startups, já mostram caminhos promissores para transformar fábricas tradicionais em biorrefinarias florestais multifuncionais, capazes de extrair valor máximo de cada tonelada de madeira processada.

O futuro da indústria de celulose e papel será moldado por quem souber transformar resíduos em oportunidades. Ao integrar tecnologia, inovação e visão estratégica, o setor não apenas contribuirá para as metas globais de descarbonização, mas também conquistará vantagens competitivas em mercados de alto valor.

A lignina, antes vista como um simples subproduto, passa a ser um vetor de inovação, eficiência e crescimento sustentável. O momento é de agir para que o Brasil lidere essa revolução verde.

Fonte: Victor Simões – Coluna Ponto de Vista, 07 de agosto de 2025