Hidrogênio Verde e a Indústria Química no Brasil: Desafios e Oportunidades

O hidrogênio verde, produzido pela eletrólise da água usando eletricidade de fontes renováveis, tem sido apontado como uma das respostas mais promissoras para a descarbonização energética global e a transformação da indústria química no Brasil e no mundo. Diferente do hidrogênio produzido a partir de combustíveis fósseis (como o “hidrogênio cinza”), o hidrogênio verde não emite CO2 durante sua produção quando associado a energia renovável, o que reduz drasticamente a pegada de carbono de setores industriais intensivos em energia e carbono.

O Brasil apresenta vantagens naturais para se destacar nesse cenário: uma matriz energética predominantemente renovável (cerca de 85% do total), com forte presença de hidrelétricas, eólica e solar, e um custo competitivo estimado de produção de hidrogênio verde (LCOH) de cerca de USD 1,50/kg em 2030, podendo cair para cerca de USD 1,25/kg até 2040. Esses números colocam o país entre os mais competitivos mundialmente.

Para a indústria química, o hidrogênio verde oferece múltiplas oportunidades estratégicas. Ele pode substituir o hidrogênio convencional na produção de amônia verde, essencial para fertilizantes com menor pegada de carbono, beneficiando diretamente os setores agrícola e químico. Além disso, possibilita a produção de intermediários químicos como o metanol verde e outros compostos da rota Power-to-X (PtX), ampliando o mercado de insumos de baixo carbono tanto para o consumo interno quanto para a exportação. Paralelamente, no setor siderúrgico, o hidrogênio verde pode atuar como agente redutor em substituição ao carvão, viabilizando a produção de ferro de baixo carbono (DRI/HBI) para o chamado “aço verde”, impactando positivamente toda a cadeia química de transformação de matérias-primas metálicas.

Apesar das oportunidades, há desafios significativos. A produção em escala ainda depende de investimentos vultosos, estimados em cerca de USD 200 bilhões no Brasil para infraestrutura completa até 2040, incluindo expansão de geração renovável e infraestrutura de transporte e armazenagem do hidrogênio. Sem um arcabouço regulatório claro e incentivos robustos, os custos de eletrólise e de certificação de hidrogênio verde podem permanecer elevados, retardando a adoção em aplicações químicas de grande escala.

Além disso, especialistas destacam que setores industriais tradicionais, e a própria indústria química global, ainda enfrentam dificuldades para abandonar combustíveis fósseis e integrar novos insumos energéticos devido à complexidade tecnológica e altos custos iniciais.

Em síntese, para a indústria química brasileira, o hidrogênio verde representa uma oportunidade estratégica de inovação, redução de emissões e competitividade global, desde que apoiado por políticas públicas, investimentos e avanços tecnológicos contínuos.

Fontes: McKinsey & Company, CNN Brasil, G1, USP, Exame, Insper

Por: Heloisa Saraiva