O Brasil é o quarto maior produtor de tintas do mundo, mas ainda enfrenta um desafio fundamental: transformar o desempenho técnico em valor percebido pelo consumidor.
Diversos setores conseguiram transformar informações técnicas complexas em ferramentas simples de apoio à decisão. Etiquetas de eficiência energética, classificações de pneus, pisos e inúmeros outros produtos permitem que consumidores comparem alternativas rapidamente, mesmo sem conhecer todos os aspectos técnicos envolvidos. O objetivo é claro: traduzir desempenho em benefícios compreensíveis. Essa lógica nos leva a uma reflexão sobre o mercado de tintas.
A indústria brasileira ocupa posição de destaque no cenário mundial. O país é o quarto maior produtor de tintas do mundo e conta com uma cadeia produtiva madura, formada por fabricantes, distribuidores, laboratórios, universidades, organismos de normalização e profissionais altamente qualificados.
Nas últimas décadas, os produtos evoluíram significativamente. As formulações tornaram-se mais duráveis, eficientes, sustentáveis e seguras. Paralelamente, normas técnicas e requisitos de desempenho contribuíram para elevar o padrão de qualidade do mercado. Entretanto, a questão é se toda essa evolução está sendo percebida pelo consumidor final.

Ao entrar em uma loja, o consumidor normalmente encontra produtos classificados como Econômica, Standard, Premium e Super Premium. Embora essas categorias estejam consolidadas há mais de vinte anos, ainda existe dificuldade para compreender, de forma objetiva, quais benefícios justificam as diferenças entre elas.
Para profissionais do setor, características como rendimento, resistência à lavabilidade, retenção de cor, resistência ao intemperismo e emissão de compostos orgânicos voláteis fazem parte da rotina técnica. Mas, para o consumidor, o raciocínio é diferente. A decisão normalmente passa por perguntas muito mais práticas: qual produto vai durar mais, qual será mais fácil de limpar, qual protegerá melhor a fachada ou qual exigirá menos manutenção ao longo do tempo. Essa diferença de percepção merece atenção.
As categorias existentes foram construídas com base em critérios técnicos consistentes e representam importantes avanços para o mercado. Entretanto, a linguagem utilizada para comunicar desempenho nem sempre acompanha a forma como o consumidor avalia o valor.
Exemplificando essa situação: uma tinta econômica pode apresentar rendimento próximo de 70 m² pintados por embalagem e resistência à lavabilidade em torno de 10 ciclos. Uma tinta Premium pode atingir aproximadamente 110 m² e superar 100 ciclos de lavabilidade. Produtos Super Premium podem ultrapassar 150 m² pintados de rendimento e alcançar níveis ainda mais elevados de resistência à limpeza.

Sob a ótica técnica, as diferenças são expressivas. Sob a ótica do consumidor, esses números nem sempre se convertem automaticamente em benefícios percebidos. Esse cenário levanta uma reflexão interessante: o mercado precisa de uma nova forma de classificação, semelhante às etiquetas utilizadas em outros setores, ou o desafio está em comunicar melhor as categorias já existentes?
A resposta não é simples: uma nova classificação poderia facilitar a compreensão e aproximar o setor de modelos amplamente reconhecidos pelo consumidor. Por outro lado, exigiria investimentos significativos em comunicação, treinamento e educação de mercado.
Também vale considerar que o setor já possui uma estrutura consolidada de classificação e requisitos de desempenho. Nesse contexto, fortalecer a comunicação das categorias existentes pode representar um caminho mais eficiente e de implementação mais rápida.
Outro aspecto frequentemente negligenciado nessa discussão é a relação entre custo e valor. Grande parte das decisões de compra ainda é influenciada pelo preço da embalagem. No entanto, quando analisamos uma pintura de forma abrangente, a tinta representa apenas uma pequena parcela do investimento realizado, algo em torno de 2%. Em muitos projetos, o custo da tinta por metro quadrado corresponde a aproximadamente um quinto do custo da mão de obra de aplicação.
Quando comparada a outros revestimentos utilizados na construção civil, a pintura continua sendo uma das soluções de melhor relação custo-benefício disponíveis no mercado. Além do baixo custo relativo, oferece elevada versatilidade estética, facilidade de manutenção e possibilidade de renovação com investimentos moderados.
Isso significa que pequenas economias na compra do produto nem sempre resultam em menor custo ao longo do ciclo de vida da pintura. Durabilidade, rendimento, resistência à limpeza e intervalo entre repintura possuem impacto direto no custo total de propriedade e na preservação do patrimônio. Essa discussão ganha ainda mais relevância quando observamos o posicionamento do Brasil no mercado global.
Apesar de ocupar a quarta posição entre os maiores produtores mundiais de tintas, o país apresenta consumo per capita inferior ao observado em mercados mais maduros.
Enquanto os Estados Unidos registram aproximadamente 15 litros por habitante ao ano e a Alemanha supera 20 litros, o Brasil permanece em patamares significativamente inferiores. Naturalmente existem fatores econômicos, culturais e habitacionais que influenciam essa diferença. No entanto, a percepção de valor também desempenha um papel importante.
O desafio do setor não está apenas em ampliar o volume consumido. Está em aumentar a valorização da pintura como elemento de proteção, conservação e desempenho.
Uma tinta de maior qualidade entrega benefícios que vão além da aparência. Ela contribui para a durabilidade das superfícies, reduz intervenções de manutenção, melhora a conservação dos ambientes e pode proporcionar melhores condições de conforto e qualidade do ar interior.

Quando esses benefícios são compreendidos, a decisão de compra deixa de ser baseada exclusivamente no preço e passa a considerar o retorno gerado ao longo da vida útil da pintura.
Por isso, a discussão sobre classificação e comunicação vai além de uma questão de marketing ou rotulagem.
Ela está diretamente relacionada à capacidade do setor de demonstrar valor, estimular a adoção de produtos de maior desempenho e contribuir para a evolução do consumo per capita no mercado brasileiro.
A reflexão permanece aberta: para ampliar a percepção de valor da pintura no Brasil, o caminho mais eficiente está na criação de novos sistemas de classificação ou na comunicação mais clara dos benefícios associados às categorias já existentes?
Independentemente da resposta, uma conclusão parece evidente: o futuro do setor dependerá cada vez mais da capacidade de transformar desempenho técnico em valor percebido pelo consumidor.
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