A Realocação do Comércio Global e o Novo Protagonismo da Indústria Química

O comércio global está passando por uma transformação estrutural. Após uma década de crescimento consistente, tensões geopolíticas, conflitos regionais e políticas industriais mais agressivas aceleraram uma realocação comercial que pode redefinir as cadeias globais pelas próximas décadas.

No centro dessa reconfiguração está a Ásia. A região já responde por cerca de 60% do crescimento global e ampliou significativamente sua participação nas exportações mundiais. Mais do que volume, seu diferencial está na integração regional e na liderança em setores considerados estratégicos: semicondutores, baterias de veículos elétricos, inteligência artificial, biotecnologia e manufatura avançada.

Essa mudança tem implicações diretas para a indústria química. O investimento estrangeiro direto (FDI) está cada vez mais concentrado em indústrias do futuro, como data centers, fábricas de chips e cadeias de eletrificação. Todos esses setores dependem intensamente de insumos químicos, de gases industriais de alta pureza e materiais avançados para semicondutores a especialidades para baterias, polímeros técnicos e químicos para energias renováveis.

Ao mesmo tempo, políticas industriais nacionais, incentivos fiscais e acordos bilaterais estão fragmentando rotas tradicionais de comércio. A competição por matérias-primas críticas, como lítio, níquel e terras raras, reforça o caráter estratégico da química, que deixa de ser apenas insumo básico e passa a ocupar posição central na segurança econômica.

A sustentabilidade adiciona outra camada a essa transformação. Cerca de 20% do FDI global já é direcionado a energias renováveis, e uma parcela significativa das emissões globais está incorporada em bens comercializados, incluindo produtos químicos. Isso pressiona o setor a descarbonizar suas operações e, simultaneamente, fornecer soluções para reduzir a pegada de carbono de outras indústrias, como aço, cimento e eletrônicos.

A grande realocação comercial não se resume a novas rotas, mas à redefinição de prioridades estratégicas. Empresas químicas que acompanharem fluxos de investimento, anteciparem novos polos industriais e incorporarem sustentabilidade e digitalização à sua estratégia estarão melhor posicionadas para prosperar na nova geometria do comércio global.                                                  

Fonte: McKinsey Company                                                                                                   

Por Heloisa Saraiva