A Indústria Química Brasileira sob a Sombra da Instabilidade Global

A continuidade dos conflitos geopolíticos, especialmente os recentes desdobramentos no Oriente Médio envolvendo ataques entre Estados Unidos, Israel e Irã, tem deteriorado significativamente as perspectivas para a economia global. Segundo dados da mídia brasileira, essa instabilidade eleva os preços das commodities e gera incertezas que reverberam nos mercados financeiros internacionais, derrubando bolsas de valores e elevando o risco país. Para o Brasil, um dos setores mais sensíveis a esse cenário é a indústria química, que representa a base de diversas cadeias produtivas, desde o agronegócio até a indústria automotiva, e enfrenta um momento de vulnerabilidade estrutural agravado pela volatilidade externa. A indústria química é o terceiro maior setor industrial do PIB brasileiro, o que torna qualquer oscilação global um tema de segurança econômica nacional.

A indústria química brasileira possui uma dependência crítica de matérias-primas importadas e de fontes de energia cujos preços são balizados pelo mercado internacional. O acirramento das tensões no Irã impacta diretamente as cotações do petróleo e do gás natural, insumos fundamentais para o setor petroquímico. O gás natural, em particular, é utilizado tanto como fonte de energia quanto como matéria-prima (nafta), e o Brasil ainda carece de uma oferta doméstica competitiva, o que obriga as empresas a importar grandes volumes. Além disso, o aumento nos custos de frete marítimo e a desorganização das cadeias de suprimentos globais elevam o custo de produção nacional, reduzindo a competitividade das empresas brasileiras frente aos concorrentes globais, especialmente os asiáticos e norte-americanos, que possuem custos de energia significativamente menores.

Esses fatores se traduzem em consequências diretas para a indústria nacional: o aumento do preço do petróleo e do gás eleva imediatamente o custo das matérias-primas básicas; o encarecimento do frete internacional impacta a logística de importação e exportação; e a incerteza cambial dificulta o planejamento de longo prazo e os investimentos necessários para a modernização e expansão do setor.

Dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim) revelam que o setor opera atualmente com níveis alarmantes de ociosidade. Em 2025, a média de capacidade não utilizada alcançou 41%, o pior patamar registrado nos últimos 30 anos . Esse cenário é resultado de uma combinação perversa: enquanto os custos de produção sobem devido à guerra, o mercado interno é inundado por produtos importados, muitas vezes com preços predatórios.

O déficit comercial do setor, que fechou em 2024 em torno de US$50 bilhões, evidencia a perda de espaço da produção nacional para produtos estrangeiros. A continuidade dos conflitos globais apenas acentua a necessidade urgente de políticas públicas que garantam segurança energética, redução do custo do gás natural e competitividade tributária. Sem medidas estruturantes, a indústria química brasileira corre o risco de sofrer um processo de desindustrialização precoce, tornando o país ainda mais dependente de importações para produtos essenciais, como fertilizantes e insumos farmacêuticos. O fortalecimento da indústria nacional é, portanto, uma estratégia vital para mitigar os impactos das crises geopolíticas que tendem a prolongar e aprofundar as incertezas econômicas mundiais.

Fontes: CNN, Abiquim, Times Brasil

Por: Heloisa Saraiva