Carpe Diem Latino-Americano: A Urgência da Produtividade em um Mundo Multipolar

A América Latina encontra-se em uma encruzilhada histórica. Enquanto o cenário global transita de um arranjo unipolar para um sistema multipolar, marcado pela regionalização das cadeias produtivas e tensões geopolíticas, a região enfrenta o desafio de reverter décadas de crescimento anêmico. Segundo a McKinsey, o crescimento médio latino-americano nos últimos 25 anos foi de apenas 2,3% ao ano, caindo para 1,2% na última década, um desempenho significativamente inferior à média mundial de 3%.

O conceito de “Carpe Diem” aplicado à região não é apenas retórico; ele reflete a finitude de janelas de oportunidade cruciais. O bônus demográfico, que impulsionou o crescimento brasileiro majoritariamente pela expansão da força de trabalho, está se fechando. Projeções indicam que o Brasil tem apenas cerca de uma década antes que o envelhecimento populacional comece a drenar o dinamismo econômico sem que o país tenha atingido níveis de renda de nações desenvolvidas. Portanto, a produtividade surge como o único motor sustentável para o futuro.

Para destravar esse valor, a região precisa superar a armadilha do investimento de baixa complexidade. Atualmente, 80% do capital na América Latina é direcionado a setores com limitada difusão tecnológica. A virada exige foco em manufatura de próxima geração, serviços digitais e na exploração estratégica de minerais críticos e energia limpa. O Brasil, com uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e liderança em agronegócio, está bem posicionado para capturar entre US$410 bilhões adicionais até 2040.

Dados recentes da CEPAL corroboram essa urgência, apontando que, embora o Investimento Estrangeiro Direto (IED) na região tenha crescido 7,1% em 2024, os novos fluxos permanecem estagnados, evidenciando a necessidade de reformas estruturais que garantam previsibilidade e integração intrarregional. A neutralidade relativa da América Latina em conflitos globais a torna um porto seguro para o nearshoring, mas a captura desse potencial depende de quatro aceleradores: diversificação comercial, simplificação regulatória, infraestrutura moderna e, fundamentalmente, a requalificação da força de trabalho.

O momento de agir é agora. Se a região elevar sua produtividade anual para patamares entre 1,7% e 2,6%, o PIB regional poderá ser até 40% superior ao cenário base em 2040. A escolha é clara: ou a América Latina abraça a agenda da produtividade, ou corre o risco de envelhecer antes de enriquecer.

Fontes: McKinsey & Company, Folha de São Paulo e CEPAL

Por: Heloisa Saraiva