Nos últimos meses, grandes empresas brasileiras passaram a ocupar o noticiário econômico em razão de renegociações de dívidas, pedidos de recuperação judicial e dificuldades para sustentar suas operações. Casas Bahia, Marabraz, empresas ligadas ao Grupo Habib’s, Braskem e Raízen atuam em setores diferentes, mas ajudam a revelar um problema comum: crescer, faturar e ter uma marca reconhecida não garantem saúde financeira.
As crises empresariais raramente decorrem de um único acontecimento. Em geral, formam-se ao longo do tempo, a partir de uma combinação de margens comprimidas, aumento do endividamento, capital de giro insuficiente, custos financeiros elevados e decisões estratégicas adiadas.
Diante desse cenário, é preciso fazer uma pergunta: o setor de tintas pode estar exposto a uma crise semelhante?
Os indicadores divulgados pela Abrafati apontam crescimento do mercado de tintas em 2026, especialmente no segmento imobiliário, o que confirma a capacidade de reação do setor mesmo em um ambiente econômico mais restritivo. Ainda assim, o avanço das vendas, por si só, não permite avaliar a saúde financeira das empresas. Um mercado pode crescer em volume enquanto enfrenta aumento de custos, maior necessidade de capital de giro e compressão das margens
A questão central não está apenas no ritmo de expansão do setor, mas na qualidade desse crescimento. Quando o aumento das vendas exige mais estoque, prazos comerciais mais longos e absorção contínua dos custos das matérias-primas, faturar mais não significa, necessariamente, gerar mais resultado.
Os dados da indústria de materiais de construção recomendam cautela. Segundo a Abramat, o faturamento deflacionado do setor recuou 3,4% no primeiro semestre de 2026. Em julho, houve queda de 1% em relação ao mês anterior e retração acumulada de 2,7% no ano. A projeção de crescimento para 2026, inicialmente estimada em 1,9%, foi revista para 0,5%.
Esse movimento afeta diretamente a cadeia de tintas imobiliárias. O menor dinamismo da construção, das reformas e da venda de materiais de acabamento tende a acirrar a disputa por volume, intensificar as promoções e pressionar os fabricantes a conceder condições comerciais mais agressivas.
O risco surge quando a competição pelo mercado leva as empresas a tratar o preço como principal instrumento de vendas. Descontos, bonificações, verbas comerciais e prazos mais longos podem preservar o faturamento no curto prazo, mas também consomem margem e ampliam a necessidade de financiamento.
O ambiente de crédito torna essa equação ainda mais delicada. Em julho de 2026, o Brasil alcançou a marca de 9,2 milhões de empresas inadimplentes, com dívidas que somavam R$ 238,6 bilhões. Em 2025, 2.466 CNPJs estiveram envolvidos em processos de recuperação judicial, o maior número da série histórica da Serasa Experian.
Os dados do Banco Central também mostram o peso do custo financeiro para as empresas. Em maio de 2026, a inadimplência nas operações de crédito livre para pessoas jurídicas chegou a 4,1%, enquanto a taxa média dessas operações atingiu 25,2% ao ano.
Para uma indústria que precisa financiar estoques, matérias-primas importadas, produção e distribuição, além de conceder prazo aos clientes, o custo do dinheiro pode ser tão determinante quanto o custo da própria formulação.
Em nosso artigo anterior na newsletter Química do Futuro, discutimos a necessidade de construir um novo mapa de custos para a precificação. Petróleo, câmbio, logística, conflitos geopolíticos e mudanças no fornecimento de insumos passaram a alterar os preços industriais com mais rapidez e menos previsibilidade.
A discussão atual dá continuidade àquele alerta. Conhecer o custo é indispensável, mas não basta. É preciso transformar esse conhecimento em decisões comerciais que preservem margem, caixa e capacidade de investimento.
A volatilidade internacional continua sendo uma fonte importante de pressão. O Banco Mundial projetou para o Brent um preço médio de US$ 94 por barril em 2026, valor 36% superior à média de 2025. No segundo trimestre, segundo a agência norte-americana EIA, o petróleo chegou a US$ 118 por barril, em um contexto de maior instabilidade no Oriente Médio e de restrições envolvendo o Estreito de Ormuz.
Os efeitos vão além dos combustíveis. O petróleo influencia cadeias ligadas a solventes, resinas, aditivos, embalagens plásticas, energia, frete e diversos componentes utilizados pela indústria de tintas. Nem todos os insumos respondem com a mesma intensidade ou ao mesmo tempo, mas a direção do risco é clara: maior volatilidade e menor previsibilidade dos custos.
O dióxido de titânio acrescenta outra variável relevante. A aplicação de direitos antidumping sobre determinadas importações de TiO₂ originárias da China pode provocar mudanças nos preços e nas estratégias de fornecimento no mercado brasileiro. O objetivo da medida é corrigir distorções concorrenciais, mas seus efeitos precisam ser incorporados ao planejamento de compras, à formação de preços e ao desenvolvimento de alternativas técnicas.
O TiO₂ ocupa posição central nas formulações de tintas brancas e coloridas, pois influencia a cobertura, a opacidade, a brancura e o desempenho. Qualquer tentativa de reduzir sua participação sem o devido domínio técnico pode resultar em mais demãos, menor rendimento, variações de cor e aumento do custo de aplicação para o consumidor.
É nesse ponto que a inovação deixa de ser um discurso institucional e passa a funcionar como ferramenta financeira.
Reformular não significa apenas substituir um insumo caro por outro mais barato. Significa compreender as interações entre pigmentos, cargas, resinas e aditivos para encontrar a melhor relação entre desempenho, estabilidade, custo e produtividade.
Ferramentas de planejamento de experimentos, modelagem de formulações, inteligência artificial e análise estruturada de dados podem reduzir o número de testes, acelerar o desenvolvimento e revelar combinações que dificilmente seriam identificadas por tentativa e erro. Os benefícios não se restringem ao laboratório. Eles aparecem na redução de perdas, na melhoria do rendimento, na consistência da produção e na velocidade de resposta ao mercado.
A qualidade também precisa fazer parte dessa estratégia. Programas como o PSQ ajudam a estabelecer referências técnicas, combater produtos em desacordo com as normas e reduzir a competição baseada apenas no corte indiscriminado de custos. Em um mercado pressionado, preservar padrões mínimos de desempenho é uma forma de proteger fabricantes responsáveis, canais de venda, aplicadores e consumidores.
O Brasil não enfrenta esse desafio isoladamente. Análises da McKinsey sobre a indústria química apontam um ambiente global marcado por demanda mais fraca, competição mais intensa, excesso estrutural de capacidade em algumas cadeias e pressão persistente sobre as margens.
Para a indústria de tintas, esse cenário exige uma gestão mais integrada. Compras, laboratório, produção, área comercial e finanças não podem trabalhar com objetivos desconectados. A economia obtida em uma matéria-prima pode desaparecer em perdas de produtividade. O volume conquistado por meio de um desconto pode consumir o caixa necessário para financiar a operação. Uma venda aparentemente rentável pode resultar em prejuízo quando se consideram prazo, frete, comissão, bonificação e risco de inadimplência.
As empresas mais preparadas serão aquelas capazes de responder com precisão a algumas perguntas fundamentais: quais produtos realmente geram margem? Quais clientes consomem mais capital de giro? Quanto custa cada condição comercial? Onde a formulação pode ser otimizada sem comprometer o desempenho? Quais investimentos reduzem perdas e aumentam a produtividade? Quanto da rentabilidade está sendo sacrificado para sustentar o volume?
A crise não começa no dia do pedido de recuperação judicial. Ela começa quando a empresa deixa de conhecer sua margem real, adia decisões difíceis, financia clientes com recursos caros e confunde crescimento do faturamento com geração de valor.
O setor de tintas reúne conhecimento técnico, capacidade industrial e profissionais qualificados para atravessar esse período. Mas será necessário tratar inovação, precificação e gestão de margens como partes de uma mesma estratégia.
Em tempos de instabilidade, proteger a margem não significa apenas aumentar preços. Significa formular melhor, comprar com inteligência, produzir com menos perdas, vender com critério e direcionar capital para o que realmente diferencia a empresa.
Talvez a pergunta não seja se o mercado de tintas continuará crescendo.
A pergunta mais importante é: quanto desse crescimento será convertido em resultado, caixa e capacidade de inovar?
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Referências
1. CNN BRASIL. A crise de grandes marcas: especial CNN Money. 5 set. 2026.
2. SERASA EXPERIAN. Inadimplência chegou a 9,2 milhões de empresas em julho e dívidas somaram R$ 238,6 bilhões. 1º set. 2026.
3. SERASA EXPERIAN. Recuperações judiciais avançam no Brasil e atingem 2,5 mil empresas em 2025, maior nível da série. 7 abr. 2026.
4. BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas monetárias e de crédito: dados de maio de 2026. Nota para a Imprensa, 1º jul. 2026.
5. ABRAFATI. Dados do setor de tintas no Brasil. Volume total de 2,005 bilhões de litros em 2025.
6. ABRAMAT. ABRAMAT reduz projeção da indústria de materiais de construção para crescimento de 0,5% após queda de 3,4% no primeiro semestre. 16 jul. 2026.
7. ABRAMAT. Indústria de materiais de construção perde força, mas aposta na virada no segundo semestre. Dados de julho de 2026 reproduzidos na página de acompanhamento setorial da entidade.
8. BANCO MUNDIAL. Middle East Conflict Sends Global Growth to Lowest Rate Since COVID-19. 11 jun. 2026. Projeção do petróleo Brent para 2026 e análise dos impactos econômicos do conflito.
9. BANCO MUNDIAL. Middle East War to Spark Biggest Energy Price Surge in Four Years. 28 abr. 2026.
10. U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION. Petroleum markets responded to disruptions in the Middle East in the second quarter. 2026.
11. BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Pigmentos de dióxido de titânio: direito antidumping definitivo. Resolução Gecex nº 802, de 23 de outubro de 2025.
12. McKINSEY & COMPANY. Chemicals 2025: A new reality for the global chemical industry. 19 dez. 2025.
13. W2S CONSULTORIA. Artigo anterior da newsletter Química do Futuro sobre o novo mapa de custos e a precificação na indústria química.
