Biotecnologia na mineração: micróbios como aliados estratégicos na nova corrida por metais críticos

A crescente demanda por níquel, cobre e elementos de terras raras, impulsionada por veículos elétricos, data centers e projetos de energia renovável, está pressionando a indústria de mineração a buscar soluções mais eficientes e sustentáveis. Com o esgotamento dos minérios de alta qualidade, empresas e startups têm recorrido à biotecnologia para extrair metais de jazidas envelhecidas, minérios de baixo teor e até resíduos industriais e lixo eletrônico.

Um exemplo é a Mina Eagle, nos Estados Unidos, onde um novo processo desenvolvido pela startup Allonnia utiliza um composto derivado de fermentação para remover impurezas do minério e viabilizar a extração de níquel de menor concentração. A proposta é prolongar a vida útil de minas existentes, reduzindo a necessidade de novos empreendimentos e seus impactos ambientais.

A biolixiviação, processo que consiste no uso de microrganismos para liberar metais, já é aplicada há décadas na extração de cobre. Nesse processo, bactérias como a Acidithiobacillus ferrooxidans oxidam compostos sulfurados, liberando o metal. Contudo, avanços recentes em ferramentas genéticas e análise molecular estão permitindo uma abordagem mais sofisticada. A startup Endolith, por exemplo, analisa DNA e RNA presentes no líquido que escoa dos montes de minério para mapear as comunidades microbianas e otimizar sua atuação. Testes laboratoriais indicam ganhos de desempenho em relação aos métodos passivos tradicionais.

Apesar do potencial, os desafios permanecem. A escala industrial exige previsibilidade e robustez, e grandes mineradoras demandam extensos testes antes de adotar novas tecnologias. Além disso, o retorno financeiro pode ser mais lento do que investidores de capital de risco costumam esperar.

Algumas empresas estão indo além, apostando na engenharia genética. A startup 1849 busca modificar microrganismos para adaptá-los a condições específicas de cada mina, aumentando a eficiência da extração. No entanto, organismos geneticamente modificados podem apresentar dificuldades de cultivo e estabilidade operacional. Outra vertente promissora é o uso de subprodutos microbianos, em vez de microrganismos vivos. Empresas como Alta Resource Technologies e REEgen desenvolvem proteínas e ácidos orgânicos capazes de extrair elementos de terras raras de minérios, escórias industriais, cinzas de carvão e lixo eletrônico. Essa abordagem conecta mineração e reciclagem, ampliando o conceito de biomineração para além das jazidas tradicionais.

Com a necessidade global por metais estratégicos em rápida expansão, a biotecnologia surge como ferramenta capaz de transformar a mineração, tornando-a mais eficiente, circular e alinhada às metas de sustentabilidade. O desafio agora é escalar essas soluções com rapidez suficiente para acompanhar a transição energética e digital em curso.

Fontes: MIT Technology Review, Associação Brasileira de Química São Paulo, Sustentabilidade Brasil

Por: Heloisa Saraiva